
Tendemos a observar mais bem pouco. Quando alguém tem a má sorte de ser adjectivado, tendemos a crer a descrição, e pouco importa já se o que fai concorda com ela ou não: o lobo sempre é mau, o porco sempre vai estar sujo, e a galinha tem de ser parva. Temos poucas ganas de comprovar com a vista a informação que recebemos polo ouvido. Em certa maneira, temos uma fé infinita nas palavras, são a nossa religião, quando o único que fão é, coma toda religião, cotar o significado, os inumeráveis recunchos que tem a realidade que nos rodeia. Abramos os olhos, sejamos surdos durante um minuto, e prestemos atenção ao que vemos: ao melhor, o lobo está a dormir placidamente, o porco tem a elegância duma bailarina, e a galinha leva observando um bom rato.
"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem"
Ensaio sobre a cegueira, José Saramago, 1995
"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.", citado do "Livro dos conselhos", de El-Rei Dom Duarte.


